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HIGH I — LÓGICA DE PROJETO: DIRETRIZES, CONDICIONANTES NORMATIVOS E DECISÕES ESTRATÉGICAS

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Condicionantes normativos e técnicos como diretrizes para a arquitetura

O HIGH é o resultado de um processo arquitetônico profundamente técnico e orientado por condicionantes objetivos. Desde as primeiras decisões, a configuração do edifício foi desenhada a partir de parâmetros normativos e físicos que determinaram tanto sua volumetria quanto sua organização funcional. Ao invés de operar com gestos livres ou desvinculados do contexto, o projeto se estruturou a partir do enfrentamento rigoroso e consciente das regras do plano diretor, da legislação municipal e das limitações impostas pelo controle do espaço aéreo. A torre que se ergue é, portanto, expressão direta da transformação dessas limitações em oportunidades arquitetônicas e mercadológicas.

Entre as premissas que nortearam o partido arquitetônico, a possibilidade normativa, introduzida na revisão do Plano Diretor, de ocupação total do subsolo foi uma das mais relevantes no início. A legislação passou a permitir que a totalidade da área do terreno fosse utilizada para as garagens, desde que respeitada a obrigatoriedade de implantação de sistemas de retenção para águas pluviais. Com este dispositivo, abriu-se a possibilidade de explorar ao máximo a área do subsolo para viabilizar o estacionamento necessário a um edifício de alto padrão.


O subsolo como variável inicial e o ajuste do edifício como sistema retroalimentado

Diferentemente de outras tipologias, onde o programa é o ponto de partida para a definição das vagas, no HIGH o subsolo surgiu como uma variável inicial aberta. A partir do desenho preliminar de circulação e disposição das vagas, foi possível estimar aproximadamente a quantidade que caberia em cada nível de subsolo com ocupação total. Este valor, por sua vez, não era definitivo, mas uma referência que seria posteriormente ajustada em função das definições superiores do edifício.

No momento seguinte do processo projetual, foi a vez das restrições normativas dos andares superiores entrarem em cena. A taxa de ocupação máxima, os recuos laterais e de fundo que crescem progressivamente conforme aumenta-se a altura pretendida e seu limite absoluto estabelecido pelo DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) tornaram-se as variáveis determinantes para o cálculo volumétrico da torre. Este conjunto de regras definiu a área disponível no pavimento tipo e, a partir dela, a quantidade de apartamentos que seria possível. Considerando ainda a necessidade de espaço para o núcleo rígido — com destaque para a caixa de escadas enclausurada e suas antecâmaras ventiladas naturalmente —, chegou-se à configuração mais racional e possível: três apartamentos por andar, distribuídos em vinte pavimentos tipo.

Com esta definição volumétrica consolidada e o número de apartamentos claramente dimensionado, foi possível calcular a necessidade efetiva de vagas para garantir, no mínimo, duas para cada unidade, com a exigência de a maior parte delas terem tamanhos maiores que o mínimo definido para acomodar camionetes e SUVs. Ao cruzar esta demanda com a estimativa de capacidade de cada subsolo — definida a partir da ocupação total do terreno e do desenho inicial de circulação e disposição de veículos —, chegou-se à constatação de que seria necessário distribuir estas vagas em três níveis subterrâneos. O número final de subsolos, portanto, não foi uma escolha arbitrária ou derivada de uma suposição inicial, mas o resultado direto da compatibilização entre a capacidade estimada de cada nível e a necessidade de atender à quantidade total de vagas exigida pelo programa residencial neste segmento e condição de mercado.

Neste ponto do desenvolvimento projetual, emergiu ainda a hipótese de ampliação adicional de mais subsolos. No entanto, tanto do ponto de vista comercial — que não exigia mais do que duas vagas por unidade — quanto do ponto de vista técnico e normativo — que já limitava o número de apartamentos implantáveis pela combinação de altura máxima, recuos e taxa de ocupação — a solução de três subsolos se mostrou definitiva e equilibrada.


Núcleo rígido e articulação entre estrutura e espacialidade

Superada a etapa de definição volumétrica e de infraestrutura subterrânea, o projeto avançou para um dos pontos cruciais da organização funcional e técnica do edifício: a articulação entre subsolos, estrutura e planta tipo. Neste momento, o núcleo rígido assumiu papel central. Composto por caixa de escadas enclausurada, antecâmaras ventiladas naturalmente e shaft duplo de ventilação, este elemento não apenas atendeu às exigências normativas relativas à segurança contra incêndios, mas também garantiu estabilidade estrutural à torre e organizou a espacialidade dos pavimentos superiores.

Nos subsolos, a necessidade de acomodar o máximo possível de vagas dentro da área disponível exigiu uma solução estrutural cuidadosamente calibrada. Diferentemente de uma lógica de grandes vãos generosos e espaçados, o que se estabeleceu foi uma malha de pilares meticulosamente posicionados. Ainda que o núcleo rígido tenha absorvido parte importante das cargas verticais e contribuído para a estabilidade geral da edificação, a implantação de pilares distribuídos foi indispensável para garantir a sustentação da torre.

O grande desafio técnico esteve justamente na realização deste ajuste fino e no equilíbrio entre instâncias que se retroalimentam. A definição da malha estrutural não se deu por uma fórmula fixa, mas por um processo contínuo de lapidação, em que o posicionamento dos pilares, a eficiência da disposição das vagas no subsolo e a liberdade das plantas tipo precisaram caminhar juntos. Neste processo, cada variável influenciava a outra e as soluções só se consolidaram quando atingiram o ponto ótimo em que qualquer alteração adicional passaria a comprometer o equilíbrio geral do conjunto. Trata-se, portanto, de um exemplo claro da lógica de compromisso (trade-offs) que orientou o projeto: não se buscou a maximização isolada de cada fator, mas a harmonia entre eles.

Este equilíbrio não se deu apenas por meio de cálculos e simulações. Ele resultou também da experiência, da sensibilidade e da capacidade de interpretação espacial dos arquitetos. Ajustar as posições dos pilares sem comprometer o número de vagas, liberar ao máximo as plantas para que pudessem acolher variações tipológicas e garantir proporções e hierarquias adequadas exigiu uma calibragem que ultrapassa a pura técnica.

Essa lógica de retroalimentação e equilíbrio, embora mais intensa e determinante nas decisões relativas à estrutura e à configuração dos andares tipo, estendeu-se também, de maneira mais flexível, às áreas comuns. No térreo, no primeiro pavimento e na cobertura, a distribuição programática — ainda que dotada de maior liberdade — precisou se ajustar ao corpo do edifício, às fronteiras do terreno e às conexões verticais e horizontais que articulam o cotidiano dos moradores.


A matriz tipológica como instrumento de flexibilidade regulada

Com o edifício volumetricamente definido e a estrutura estabilizada, o projeto avançou para a elaboração da matriz tipológica. Organizadas em três famílias principais — A, B e C —, as plantas foram desenhadas para oferecer diversidade e atender diferentes perfis de moradores, sempre dentro de margens técnicas que garantem racionalidade construtiva e coerência arquitetônica, permitindo que cada tipo de planta explorasse combinações distintas de pré elementos espaciais, respeitando sempre os limites geométricos e normativos do projeto.

  • Número de dormitórios regulado entre 2 e 3 dormitórios. A quantidade de dormitórios é fixa em cada modelo, mas as dimensões podem ser ajustadas dentro de margens previamente estabelecidas, especialmente para atender preferências específicas em relação ao tamanho dos quartos.
  • Possibilidades de home office, incorporadas como alternativas de uso adaptável para quartos ou áreas de circulação ampliadas, adequadas à nova dinâmica residencial contemporânea.
  • Closets e semi-closets configuráveis, permitindo que as áreas de armazenamento se ajustem ao perfil e à necessidade dos moradores. Em algumas configurações, os closets são completos; em outras, semi-integrados.
  • Varandas internas e externas, organizadas conforme a relação desejada entre as áreas sociais e a paisagem urbana.
    → Varandas internas: contínuas à sala, ampliam a área social e permitem maior integração e flexibilidade de layout;
    → Varandas externas: projetadas para reforçar a relação direta com o exterior e valorizar a vista urbana.
  • Banheiros ajustáveis, Com a possibilidade de ampliação por meio da unificação ou da adoção de soluções como demi-suítes — configuradas com duas portas e servindo a dois quartos —, os projetos preveem alternativas que podem ser aplicadas conforme necessário para assegurar a adequada correspondência às necessidades específicas de cada morador
  • Áreas de serviço com alternativas configuráveis, com duas soluções principais:
    → Integradas à cozinha, otimizando o espaço social e atendendo a perfis que priorizam amplitude na área social;
    → Reservadas e ampliadas, localizadas atrás da cozinha, oferecendo mais privacidade e capacidade para usos intensivos.

HIGH I – TIPO A


HIGH I – TIPO B


HIGH I – TIPO C


No HIGH, a definição das plantas-tipo não se traduz em um encerramento definitivo das possibilidades do projeto dos apartamentos. Dentro de cada tipologia são previstas variações e recomposições internas que permitem ajustes relevantes de acordo com as necessidades dos moradores. É possível optar, por exemplo por três suítes, como no modelo A4, mas preferir que a área social conte com uma varanda externa e não interna, como ocorre no A1, valorizando a relação com o exterior. Um cliente pode desejar o conforto da ampliação da sala do modelo A6, mas preferir manter três dormitórios como na solução A2, adequando a distribuição. Dentro da tipologia C, pode-se desejar a configuração do C5, com três suítes, mas optar por uma varanda externa, como no C2 ou C4, para reforçar a vista e a conexão com o ambiente.
Essas possibilidades estão previstas porque cada tipologia é composta por módulos e soluções que conversam entre si. A planta é um campo de variações reguladas, não rígidas.

Veja os detalhes de cada configuração neste link

O projeto também contempla possibilidades especiais de integração que ampliam ainda mais as alternativas de configuração das unidades. Entre elas, as unificações horizontais, que possibilitam a junção de apartamentos vizinhos no mesmo pavimento — inclusive entre tipologias diferentes — para compor plantas ampliadas e diferenciadas. Já as unificações verticais permitem a formação de duplex, com a integração de unidades em andares consecutivos e consequente expansão das áreas privativas. Em ambos os casos, assim como no rearranjo das tipologias existentes, a adoção dessas soluções depende de análise técnica criteriosa, visando assegurar a viabilidade estrutural, a manutenção da lógica arquitetônica e a plena compatibilização com os sistemas do edifício.

A arquitetura de interiores representa, nesse processo, uma etapa fundamental para a adequação do espaço às especificidades de cada usuário. Cabe ao profissional responsável interpretar a planta, propor soluções personalizadas para o layout, coordenar a definição de materiais e acabamentos e acompanhar a execução. Além disso, é prevista ao morador a possibilidade de ajustes orçamentários e funcionais, como a decisão de assumir a instalação de determinados acabamentos ou definir outras soluções para pisos e revestimentos.

Dessa forma, a matriz tipológica do HIGH se consolida como um sistema regulado e adaptável. Embora subordinada a parâmetros técnicos e construtivos claros, oferece margem para ajustes e personalizações que respeitam tanto as necessidades dos moradores quanto a coerência e integridade do conjunto arquitetônico.


Áreas comuns: narrativa vertical e o edifício como infraestrutura de serviços

As áreas comuns do HIGH foram cuidadosamente organizadas para criar uma narrativa vertical coerente, que articula diferentes níveis de uso e privacidade e qualifica a experiência coletiva dos moradores. A organização do empreendimento traduz essa visão em uma graduação de usos e integrações, que articulam diferentes níveis de uso e privacidade e qualificando a experiência coletiva dos moradores. A relação com o entorno, a dinâmica interna do edifício e a diversidade de perfis de usuários orientaram a distribuição programática e fundamentam essa hierarquia:

No térreo, concentram-se as funções de recepção e interface com o público externo, configurando o espaço de maior integração com a cidade. Guarita, hall de entrada, área de encomendas, vending machines conectadas a aplicativos internos e salão de festas com praça externa constituem o primeiro ponto de articulação entre o edifício e a vida urbana. O coworking, estrategicamente posicionado, reforça esta conexão, funcionando como espaço para atividades profissionais e encontros com visitantes. Complementam esta camada o bicicletário, vagas de carros compartilhados e áreas técnicas, reforçando o papel do térreo como hub da mobilidade e da logística cotidiana.

No primeiro pavimento, elevado em relação ao térreo, a proposta é de um espaço mais introspectivo, reservado à convivência familiar e ao lazer cotidiano dos moradores. Lounge gourmet, piscina coberta, sauna, piscina com raia, salão de jogos, brinquedoteca, playground, quadra e espaço pet estruturam uma ambiência voltada à sociabilidade interna, com menor necessidade de interação com serviços externos ou on demand.

Nos pavimentos superiores e na cobertura, a narrativa espacial volta a se intensificar em termos de sofisticação e personalização. A cobertura abriga o rooftop gourmet, academia completa, spa de beleza e mirante panorâmico — espaços que não apenas proporcionam experiências exclusivas, mas também são articulados por meio de sistemas digitais para reservas e uso personalizado.

Essa narrativa espacial, que se organiza do coletivo e urbano ao reservado e personalizado, expressa a vocação do HIGH como plataforma para o morar. Ao estruturar suas áreas comuns como camadas articuladas por diferentes quantidades de tecnologia e diferentes formas de apropriação, o empreendimento antecipa uma tendência que já redefine as dinâmicas urbanas: a da moradia como experiência expandida, em que arquitetura, tecnologia e vida cotidiana se entrelaçam de forma integrada e fluida.


Conclusão: maximização e síntese arquitetônica

O HIGH é, em essência, a materialização de um conceito que vai além da mera eficiência técnica mas também de uma mera da estética descolada dos condicionantes da realidade urbanística e de mercado. Desde o início, o projeto foi concebido como um exercício rigoroso de maximização e otimização, no qual cada decisão precisou conciliar restrições normativas, condicionantes físicos e premissas econômicas sem que nenhuma dessas dimensões sobrepusesse às demais. Ao contrário, a qualidade do resultado reside justamente na capacidade do projeto de equilibrar todas elas.

Em todo este processo, o projeto do HIGH é perceptível uma lógica do trade-off projetual como fundamento criativo. Não se tratava de maximizar unilateralmente cada variável, mas de buscar, no equilíbrio entre elas, a solução que melhor sintetizasse técnica, forma e experiência do usuário. Essa síntese, no entanto, resulta da capacidade dos arquitetos de interpretarem o problema dado, de entenderem a ” quantidade de arquitetura necessária”, de calibrarem intuições e de comporem com sensibilidade relações que não se traduziam apenas em números ou algoritmos.

Assim, apesar de toda lógica aparente o HIGH não é apenas um edifício tecnicista. É a expressão consolidada de uma estratégia, buscada pela G2R há anos, de trazer a arquitetura para o centro do desenvolvimento do empreendimento desde o primeiro esboço. Uma estratégia que compreende a cidade, domina as técnicas e regula as formas — mas que, acima de tudo, reconhece que só a boa arquitetura, com sua dimensão técnica, estética e humana é capaz de transformar condicionantes e limites em espaços desejáveis para se morar e viver.